#MinasProgramam

Você já se deu conta do quanto a internet, o mundo gamer ou mesmo o setor de tecnologia de um modo geral parecem odiar as mulheres? Vá a uma sala de engenharia, de ciência da computação ou de qualquer outra área ligada às exatas e conte (talvez apenas uma mão será necessária, a depender do curso) quantas mulheres você verá. Perceba o quão comum é o discurso de que mulheres são “naturalmente” inclinadas para as ciências humanas, enquanto homens têm um pensamento mais “lógico”, têm mais chances de irem para as áreas de exatas.

Chegamos ao ponto de ouvir que mulheres em laboratórios atrapalham e, de um grande líder de uma “pequena” empresa de tecnologia, que não pedir aumento de salário traz um “carma bom” às mulheres, e que é com essas que ele gostaria de trabalhar. Tipo, quê? Vocês querem ganhar mal? Eu não quero ganhar mal. E nem acho que devamos nos contentar com essas disparidades de gênero que existem no mundo da tecnologia e em seus postos de decisão.

A verdade é que tecnologia e informação são poder. Ocupar a rede e poder usufruir dela e ajudar a construí-la significa, também, empoderamento. E é por isso que as mulheres foram afastadas dessa área. Até a década de 70, os cursos ligados à tecnologia tinham a mesma proporção entre homens e mulheres. A partir do momento em que entender de programação, de algorítimos, de lógica passaram a ser desejáveis para a economia, se tornaram ferramentas poderosas dentro das empresas e adivinhem? As mulheres foram tiradas desses postos. E como isso foi feito? Vídeo-games para os meninos, boneca para as meninas, carrinho para os meninos, fogãozinho para as meninas. Ou mesmo desmerecendo nossas capacidades de tomada de decisão, pensamento lógico-racional.

minasprogramam

Pensando nisso foi criado o #minasprogramam, uma iniciativa que reunirá cursos para ensinar programação para as mulheres. Como primeira etapa do projeto, foi organizado o Debate #MinasProgramam, que rolou ontem na Casa de Lua, na cidade de São Paulo. Foi um rolê incrível em que discutimos software livre, como acontece esse gap de gênero no setor de tecnologia, o aumento da demanda por programadores e como isso tem feito com que empresas contratem mais mulheres e o outro lado da moeda desse caso: mulheres ainda são vistas como mão de obra barata.

A discussão contou com minas que não programam (mas estudam e estão ligadas a questões sobre tecnologia), caso da Bárbara Castro, que mediou o debate, Carol Stary, criadora do Um Servidor por Vez e colaboradora na Revista Capitolina e Patricia Cornils, ativista de dados abertos na comunidade Transparência Hacker. E minas que programam, como Camila Achutti, fundadora da página Mulheres na Computação e Haydeé Svab, hacker e também integrante do Transparência Hacker.

O debate como um todo foi bastante rico, mas alguns pontos merecem destaque:

1) Precisamos ocupar a rede

Carol Stary falou da importância de se usar a internet e a tecnologia não só enquanto meio técnico, mas enquanto espaço de discussão, desconstrução e aprendizado. Saber como funcionam esses meios de discussão. Discutir o uso da internet em termos práticos: redes sociais e seu uso, fóruns de discussão, games.

Esse é um dos viéses do Ciberfeminismo: o de ocupação da tecnologia. Quando penso nesse sentido, me vem o exemplo do Wikipedia na cabeça. Segundo a Bárbara, mediadora do debate, as mulheres são minoria entre os colaboradores da enciclopédia digital. E isso afeta muito o modo como os conteúdos são construídos e apresentados. Imagine, por exemplo, ler um artigo sobre Feminismo escrito por um homem. O viés é completamente diferente.

2) Mas precisamos, também, construir a rede

Vocês acham que, se o Facebook, a empresa, tivesse mais mulheres, haveria tantas páginas com discurso de ódio na rede social? Não que elas fossem deixar de existir, mas as denúncias seriam levadas mais a sério. Não teríamos que denunciar uma página que faz apologia ao estupro e, em seguida, receber uma mensagem dizendo que aquele conteúdo não fere os termos de uso do Facebook.

Se tivéssemos mais minas construindo a internet, talvez ela nos odiasse menos. Casos de slutshaming e revenge porn não se disseminariam tanto.

Além disso, minas programando e sabendo como construir esses meios e espaços significa, também, mais iniciativas em nosso favor. A Camila contou, por exemplo, de um caso de meninas de Mumbai, cidade da Índia, que criaram um app para que as mulheres soubessem exatamente o momento em que o “ônibus rosa” (ônibus exclusivo para mulheres) passaria em frente às suas casas, de modo que estariam menos sujeitas ao risco de exposição. Em um país em que, segundo essas meninas, “estupro é só uma questão de tempo”, uma iniciativa como essa é MUITO importante.

3) Precisamos nos proteger na rede

Segurança e privacidade na rede são questões que afetam todo mundo. Mas, no caso das mulheres, saber se proteger na internet é correr menos o risco de ter a intimidade tornada pública. É saber que suas mensagens podem ser protegidas. Que seu navegador não precisa te controlar.

4) Mudando o mundo. Uma garota por vez.

Esse é o lema da Camila, exposto em seu site Mulheres na Computação. Tecnologia e informação são ferramentas de empoderamento. Saber como funcionam nos dá mais autonomia, permite que a gente construa nossos próprios projetos. Nos dá a oportunidade de materializar muitas ideias (que podem ajudar muita gente). E a real é que o mercado precisa de nós, já que há uma demanda muito grande por programadoras. E o mundo precisa de nós, para que mais iniciativas como a das meninas de Mumbai aconteçam.

Podemos mudar o mundo. Uma garota por vez.

Você pode acompanhar o debate na íntegra pelo vídeo:

Sobre a autora

Nathalia Rocha
Nathalia Rocha

Jornalista. Feminista. Tem orgulho da cor e do cabelo. Idealizadora do Frida Diria. Acredita no poder da internet como ferramenta de empoderamento das minas.